Wednesday, July 27, 2005

De olhos fechados

O caminho parecia estreito. Ainda assim ele avançou, sabendo que do outro lado estaria algo de substancialmente diferente. Avançou. Durante o caminho cerrou os punhos, mordeu os lábios e fechou os olhos. Atirou-se de cabeça. Pensou nela e no que tinha ficado por dizer e por fazer. Pouca coisa. E assim foi. Enquanto sentia o caminho estreitar-se recordou apenas o dia em que a conheceu. Foi numa tarde fria de inverno. Ela caiu, ele curvou-se e os dois beijaram-se. O que veio depois não chegou nunca a ter a importância daquele primeiro encontro. Os anos que se seguiram só lhe confirmaram o sonho desfeito. Foi aquele beijo que o acompanhou durante o caminho. Os lábios dela iriam consigo para onde quer que fosse, para o outro lado onde ele sabia que estava algo de substancialmente diferente. Assim fechou os olhos e morreu...

Monday, July 18, 2005

Os passos no ar

Fazia de tudo para a ver. Quando ela passava era como se todas as luzes se apagassem e só uma, por cima dela, se acendesse. À volta ficava o silêncio. Dentro dele também. Havia o eco daquela respiração e pouco mais. Para além disso, o barulho do desejo. Quando pensava nela, ele não conseguia sonhar baixinho. Havia um grito mudo. Havia um sufoco que só passava quando a vista perdia para o coração e ela se afastava. Mesmo assim ele fazia de tudo para a ver. Passar. Ele sabia. Ela não. Quando ouvia os passos dela, longe, ainda nas suas costas, ele fugia do que estava a fazer e deixava-se cair no ritmo alucinante da sua caminhada. Ficava a imaginá-la a pisar algo mais do que um soalho sem cor. Depois abanava a cabeça e escondia-se para não ser visto. Havia aquela impossibilidade no ar, uma distância que não era real, mas que existia na sua cabeça. Dela nem sinal de vida. Só os passos. Aqueles passos. Ela não deixava ninguém atravessar-se na sua frente, nunca olhava para os lados, seguia sempre em linha recta por um caminho misterioso e depois regressava ao ponto de partida. No ar ficava sempre a imagem, ficavam as sombras dos seus cabelos e um doce respirar que ele se apressava a inalar como uma droga, primeiro que os outros. Ele não queria mais, não queria menos, só aquilo. Dor? dor era não poder partilhar o mesmo espaço. E esse ninguém lho roubava. O silêncio e o segredo eram o seu único garante. Porquê desbravá-los! Ele sabia que nunca teria mais do que os seus passos e era por isso que ele insistia tanto em ouvi-los.

Faz-se tarde

Hoje cheguei tarde. Esqueci-me. Foi mais forte do que eu. Quando o tempo deixa agarrar-se com as mãos eu não resisto. Apanho-o, fico horas a olhar para ele como se fosse um pássaro ferido e depois deixo-o fugir, entre os dedos, porque a vida tem de seguir. A minha segue, às vezes ferida, sem ter para onde fugir. Nessas alturas dou por mim à procura de nada, de uma solução à solta no ar, no vento, numa cor, num pestanejar de olhos, num fio de cabelo, na palma de uma mão morta, numa gota de água, no chão, na estrada, no frio, no calor, na mudança, na pele, no respirar, no som, no fogo ou na chuva. E nada! Nem o passado, nem o futuro, ou o que me chega dele, me consolam. Vejo sempre um muro e por trás dele um campo imenso, possivelmente com a grandiosidade do mar e a extensão do céu. É verde, muito verde. Há água a correr no meio. Sempre que tento saltar o muro, vem o tempo, trocar-me as voltas e lembrar-me que já é tarde. Como hoje. O que vale é que eu não tenho nada para fazer.

Thursday, July 07, 2005

Uma testemunha

Os atentados de ontem em Londres fizeram-me recordar daquele dia. Também eu já fui vítima de um atentado. Já lá vão cinco anos e ainda hoje esse dia se mistura com a realidade. A minha. Será que aquilo aconteceu mesmo? A confirmação chega-me todos os dias quando, por um motivo ou por outro, me cruzo com algum daqueles odores. Hoje identifico-os em qualquer parte como os cheiros da desgraça: o cheiro a fumo e o cheiro a medo.
Estava uma noite quente, igual a muitas outras. A única diferença era o céu que estava mais negro do que era costume. O ar estava denso, irrespirável, intransitável. Lembro-me que me apetecia muito namorar, amar e beijar alguém. O meu corpo pedia-o. Muito. Estava uma daquelas noite em que o desejo parece que nos empurra para fora de nós.
Aquele foi o dia em que a conheci, verdadeiramente. Há muito que ela andava a tentar-me, mas naquela noite a explosão aconteceu mesmo. Ela estava deslumbrante. Quando dei por mim já havia estilhaços por todo o lado. Naquela noite correu sangue entre nós, o meu e o dela, como um só. Ela atentou-me e eu sucumbi. Não houve mortos. Houve sim, feridos. Feridos de amor. As cictarizes estão cá para me lembrar que a amo. Para nunca me esquecer que a paixão por mais que arrefeça deixa sempre marcas. E as marcas estão visiveis a todos.
Daquela noite recordo-me do cheiro a fumo do cigarro dela e do cheiro a medo, o medo que tive em amá-la. A desgraça veio depois: casámo-nos. Mas somos felizes.

Dedicado às vítimas do atentado de Londres. O amor une mais do que o morte desune.

Wednesday, July 06, 2005

O seu ouvido esquerdo

As declarações de amor são assimiladas mais facilmente quando sussurradas no ouvido esquerdo. A descoberta foi do cientista Teow-Chong Sim, da Universidade Estadual Sam Houston, nos Estados Unidos. Segundo ele, este processo tem relação com a função dos dois hemisférios cerebrais. O lado direito, que controla o ouvido esquerdo, é responsável pelo processamento dos estímulos sentimentais. Das 62 pessoas submetidas aos testes, as que ouviram declarações de amor pelo ouvido esquerdo conseguiram lembrar-se melhor das palavras.

Hoje acordei-a, como sempre faço, com um "Bom dia amor". Ela diz que não ouviu. Está explicado. Que culpa tenho eu que ela tenha escolhido dormir com o ouvido esquerdo para o lado da casa de banho?

A dança das palavras

Sguedno um etsduo da Uinvesriadde de Cmabgirde, a oderm das lertas nas pavralas não tem ipmortnacia qsuae nnhuema. O que ipmrtoa é que a prmiiera e a utlima lreta etsajem no lcoal cetro. De rseto, pdoe ler tduo sem gardnes dfiilcuddaes... Itso é prouqe o crebéro lê as pavralas cmoo um tdoo e não lreta por lerta.

È msemo veadrde !

(enviado por PD. Obrigado)

Tuesday, July 05, 2005

O véu lilás (II)

Se havia coisa que o preocupava, até mais do que estar na cama de uma desconhecida, era o facto de saber que alguém tinha estado em contacto com aquela zona imediatamente abaixo do peito a que se recusava chamar barriga. Ele nunca dava o braço a torcer e chamava-lhe "calo sexual", mas a verdade é que ele sabia que aquele volume que o envergonhava fazia lembrar um daqueles bolos de massa branca deslavada à espera de ir ao forno.
Nos últimos meses, inclusivé, o seu umbigo havia dado lugar a um profundo abismo negro rodeado de pêlos por todos os lados e isso trazia-lhe à memória o ralo da banheira de uma casa de "putas".
Naquela manhã, diz ele que se sentiu uma verdadeira desgraça. Com as unhas dos pés por cortar, a barba por fazer e o banho por tomar, sentiu-se o homem menos atraente do mundo. "Mas há mulheres para tudo", pensou.

Monday, July 04, 2005

Industrializar

Os oito países mais industrializados do mundo (à excepção de Portugal) encontram-se esta semana. Mais uma vez. Juntos eles são o G8 (se uma mulher só com um "G" diz que atinge a loucura faço ideia do que estes senhores vão gozar juntos). A pobreza em África e as alterações climatéricas vão ser dois dos assuntos a debater. Parece que já estou a ler essa brilhante conclusão da cimeira. "Os ventos não estão favoráveis a África".

Sunday, July 03, 2005

Nas nuvens

Eu sei. Eu confesso. Vivo no mundo da lua e ando sempre com a cabeça no ar mas sonhar com o presidente da TAP já é demais. Aconteceu-me ontem. Tenho de ir ao médico.